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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

[Conto] Uma Lua?

“Em meio um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua. (...)”

Trecho de “O Poeta e a Lua”, de Vinícius de Moraes. in. Antologia Poética.


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Uma Lua?

Por um feliz acaso lingüístico, ou por pura malícia dos ancestrais, Lua é um substantivo simples, do gênero feminino. Um substantivo simples, para nos lembrar que a vida não é tão complicada como imaginamos, ou tão dura como tentamos torná-la. Uma consoante, duas vogais em ditongo decrescente, simplesmente Lua. Suave e mística, com seu olhar de morena velando a noite, inspirando poetas e vagabundos, dissolvendo risadas soltas no ar por nossas madrugadas tropicais, enquanto o sereno cai tranqüilo e contundente como agulhas em noites frias, ou então refrescante como a brisa marítima, quem sabe?!


Feminina pelos encantos que exerce em suas quatro faces: Nova, Crescente, Minguante, Cheia! Feminina, pois só uma bela mulher poderia exercer tais encantos sobre a humanidade. Feminina, pois só sendo feminina para conseguir tirar a atenção do homem sobre seu incólume mundo egoísta, fazê-lo olhar para o céu, e comentar: “Nossa, como a Lua está linda hoje?!”


Enfim, feminina, pois mesmo depois do último copo, ou falecido o último dos poetas, o último dos insones, o último dos vagabundos, e mesmo depois de desiludido o último dos sonhadores, lá estará ela, triunfante, redonda e branca, reinando soberana sobre a madrugada.

sábado, 18 de outubro de 2008

[Conto] Prosa descontínua do substantivo feminino.

A ambulância, a maternidade, a luz. A enfermeira, a palmada, a tesoura. A mãe, a infância, as palavras. A bicicleta, a pipa, a amizade. A adolescência, a primeira vez, a paixão. A filosofia, a música, a ilusão. A carteira de motorista, a faculdade, as festas. As noites, as bebidas, as mulheres. A moto, a praia, a euforia. A viagem, a paisagem, a namorada. A paixão, a fidelidade, a tentação. A mulher, a poesia, a prestação. A pia, a geladeira, a máquina de lavar. A sogra, a empregada, a cunhada. A gravidez, a maternidade, a luz. A filha, a crise financeira, a discussão de relacionamento. A outra, a separação, a pensão alimentícia. A depressão, a escolha, a reconstrução. A noite, a liberdade, a namorada. A mudança, a adaptação, a tranquilidade. A união estável, a segunda filha, a nova fase. A carreira, a estabilidade, a realização. A adolescência, a insônia, a preocupação. A faculdade da filha, a aposentadoria, a velhice. A neta, a teogonia, a televisão. A transcendência, a entrega, a morte.