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terça-feira, 30 de junho de 2009

[Conto curto] Instante estanque

Olhou o relógio e se apressou inutilmente. Toda incerteza tem a habilidade de se condensar em um instante sem correspondência real, numa composição dadaísta de vazio e silêncio. Uma gota de suor lhe nasceu na testa. Por mais que tivesse a dizer, seu palato era um trapézio de palavras; as ideias jogavam malabares em seu estômago; as pupilas dilatavam.

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- É grave, Doutor?

- Suspeita de AVC, senhora!


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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

[Conto] Vazio.

Vazio. Era assim que o espaço-tempo ao redor de Cristina ungiam o apartamento de quarto e sala na esquina mais movimentada da cidade com um sentimento melancólico e obscuro, de origem desconhecida. No rádio, um solo de trompete se contorcia denso entre a sala e a cozinha, agonizando solitário ante um tímido acompanhamento de piano minimalista. Olhou para a conjunção descontínua entre carros e sinais de trânsito efervescendo pelas paredes externas do prédio, embebidos pela chuva e abafados pelas janelas fechadas, enquanto buscava dentro de si um pouco de disposição para preparar o café da tarde. Os guarda-chuvas se encarregavam de um movimento lúdico e inconstante, cobrindo as calçadas com seu luto inanimado. Na cabeceira da cama ainda havia mais três comprimidos de Diazepam, os últimos, guardados como tesouro para enfrentar mais uma tenebrosa noite de domingo, e esperar incógnita a manhã de segunda-feira. Costumava dizer que a culpa de sua solidão era a obesidade e a mecha de cabelo branco que lhe tomava a têmpora, impondo-lhe um ar dracúleo. Cristina era dessas mulheres apaixonadas que nunca estão amando a ninguém, muito mais por conta do pessimismo que lhe é inato do que pela falta de atributos físicos; o negativismo apaga qualquer possibilidade de beleza palpável num corpo pálido, inerte e esquecido. Pediu licença médica da repartição para tratar de uma depressão aguda, e desde então só saia de casa para comprar comida, religiosamente no mesmo horário, todos os dias; mas desta vez, comprou um litro de vodka no lugar do macarrão. Um copo fundo, um cigarro, Bitches Brew passeando por diversas escalas, e o segundo copo fundo fez com que Cristina esquecesse o gás aberto, enquanto procurava algo interessante na televisão num dia chuvoso de domingo – não sem antes vedar a porta com uma toalha de banho molhada.