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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

[Conto] Vazio.

Vazio. Era assim que o espaço-tempo ao redor de Cristina ungiam o apartamento de quarto e sala na esquina mais movimentada da cidade com um sentimento melancólico e obscuro, de origem desconhecida. No rádio, um solo de trompete se contorcia denso entre a sala e a cozinha, agonizando solitário ante um tímido acompanhamento de piano minimalista. Olhou para a conjunção descontínua entre carros e sinais de trânsito efervescendo pelas paredes externas do prédio, embebidos pela chuva e abafados pelas janelas fechadas, enquanto buscava dentro de si um pouco de disposição para preparar o café da tarde. Os guarda-chuvas se encarregavam de um movimento lúdico e inconstante, cobrindo as calçadas com seu luto inanimado. Na cabeceira da cama ainda havia mais três comprimidos de Diazepam, os últimos, guardados como tesouro para enfrentar mais uma tenebrosa noite de domingo, e esperar incógnita a manhã de segunda-feira. Costumava dizer que a culpa de sua solidão era a obesidade e a mecha de cabelo branco que lhe tomava a têmpora, impondo-lhe um ar dracúleo. Cristina era dessas mulheres apaixonadas que nunca estão amando a ninguém, muito mais por conta do pessimismo que lhe é inato do que pela falta de atributos físicos; o negativismo apaga qualquer possibilidade de beleza palpável num corpo pálido, inerte e esquecido. Pediu licença médica da repartição para tratar de uma depressão aguda, e desde então só saia de casa para comprar comida, religiosamente no mesmo horário, todos os dias; mas desta vez, comprou um litro de vodka no lugar do macarrão. Um copo fundo, um cigarro, Bitches Brew passeando por diversas escalas, e o segundo copo fundo fez com que Cristina esquecesse o gás aberto, enquanto procurava algo interessante na televisão num dia chuvoso de domingo – não sem antes vedar a porta com uma toalha de banho molhada.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

[Conto] Apenas mais um verão escaldante.

Mais um dezembro escaldante como outro qualquer; a rádio comunitária gritando um funk estridente, o som metálico das peças do fuzil se encaixando e a gota de suor escorrendo pela minha testa fazem parecer que o tempo parou por alguns instantes, para dar a todos mais alguns segundos de vida. Montei e desmontei a Kalashnikov três vezes, enquanto o exército se prepara para subir – dá pra sentir daqui de cima o cheiro do medo. As pipas já não estão mais no céu, as pessoas já trancaram suas casas. A polícia alegou não ter condições de subir o morro, e o exército brasileiro entrou na jogada como última solução para o caos urbano. Irônico, né?! – mais fácil convencer um moleque de dezoito anos a cumprir o dever, do que um pai de família; mas não é disso que eu quero falar: quando as armas dispararem os primeiros tiros, será apenas o velho instinto de sobrevivência primata cuspindo projéteis a setecentos metros por segundo na direção do inimigo; sem sociologia, Estado, ou religião para intervir. Depois de morto deve ser mais fácil olhar para a própria vida e encontrar nossos erros, mas não estou aqui para chorar minhas misérias, nem para compreender o que o destino me aprontou – sobrevivo no tráfico desde os treze anos, sem nenhum ferimento de combate, e rezo todos os dias para continuar vivo, ou morrer rápido, só isso; e talvez por isso mesmo incomode tanto o secretário de segurança pública: atualmente, sou o cara que está a mais tempo no comando de uma boca de fumo em todo o estado do Rio de Janeiro – e por isso mesmo chegou a minha vez de pagar o preço da fama, os jornais precisam dar alguma satisfação para o pão e circo nosso de cada dia, e vou fazer o possível para que minha vez não seja hoje. Simplesmente fingem não saber que matando um cara como eu, surgirão outros vinte querendo ocupar a vaga, mas prefiro não dizer o que penso sobre isso tudo – o que importa agora é sobreviver, e não contemporizar com o inimigo. Eles já estão posicionados, faltam alguns segundos incólumes para a primeira armar disparar, e alguns minutos insanos entre o primeiro tiro e o caos. Coloquei os fones de ouvido, a trilha sonora do Pulp Fiction me inspira – seria bom ser bandido como o John Travolta, e no próximo filme interpretar um cara comum, mas aqui é a Babilônia, não Hollywood. As carreiras do pó branco me deixam concentrado em continuar vivo por mais um dia, enquanto Miserlou fica repetindo no MP3 catarticamente a todo volume, e minhas pupilas dilatam. Faço o sinal da cruz, pedindo para que o sangue espalhado pelo chão não seja o meu, beijo o retrato do meu filho; minhas guias me protegem, e seiscentos tiros por minuto abrem as portas entre o céu e o inferno, enquanto o helicóptero da Globo registra tudo à distância segura. É apenas mais um dezembro escaldante, que em algumas horas você verá na TV.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

[Conto] Fragmentos

Clotilde usou o FGTS que recebeu com a demissão para reforçar sua escassa dentição. O seguro desemprego ainda lhe renderia mais cinco meses sem trabalho e ela resolveu experimentar coisas novas. Caiu de pára-quedas no underground, aprendeu a beber, a fumar, mudou o estilo da vestimenta, e se enturmou com um pessoal meio metido a intelectual, mas que sempre ria de suas piadas sexualmente caricatas com certa incredulidade da situação surreal de ver aquela mulher tão parecida com o Zacarias falando palavrões. Passou a gostar de Rockabilly, deixou as meninas cortarem seu cabelo, e começou a sair todos os dias. Sexo, drogas e rock’n roll, com muito mais rock’n roll do que sexo e drogas, e tudo corria tranqüilo, até que ela voluntariosamente se ofereceu para cozinhar para a turma – ela entrava com os conhecimentos culinários, eles com os ingredientes. Mais de vinte pessoas foram experimentar o tal risoto ao funghi, panelão no fogo, todos comendo com muita satisfação. Clotilde acordou ao meio-dia numa praia que não conhecia, e até deu uma risada maliciosa, ao perceber sinais de uma possível noite de sexo da qual não se lembrava.